Mais que sobreviver
Aos 16 anos eu tive um namorado que não aceitava o fim da relação. Cada vez que o via do outro lado da rua em frente ao meu trabalho, na saída da escola, me seguindo na rua, eu tremia, meu coração disparava, eu sabia que algo de ruim poderia acontecer. Por meses passei por ameaças, constrangimentos, perseguição e medo. Também sentia pena e culpa.
O patriarcado está na essência da sociedade, está em tudo e em todos. Estava naquele rapaz de 16 anos e estava em mim também. Ele acreditava que podia me ter, que podia possuir e controlar meu corpo, meu coração, minha mente, minha alma. Ele se desesperou ao saber que não, ele não podia. Apesar de todo medo e angústia, eu acreditava que era meu papel cuidar, não desagradar, não magoar, então me sentia culpada por não gostar mais dele, por fazê-lo sofrer ao terminar o namoro.
Eu só tinha 16 anos e estava dividida entre o papel de mulher que deveria servir, e o de mulher que deveria se priorizar. Mas eu não era uma mulher, eu era uma menina. Tentei apaziguar, tentei conversar, explicar, eu sentia pena em vê-lo sofrer, mas sabia que seria pior para mim e para ele se eu não fosse firme. Eu era menina, mas precisava ser forte e madura por nós dois.
Um dia eu cansei, cansei de ter pena, cansei de ter culpa, cansei de ter medo e enfrentei. Ele andava com uma faca e naquele dia temi que eu, ele ou ambos sairíamos machucados, mas não, ele foi embora esbravejando e não voltou. Fico pensando na sorte que eu tive, não sei se hoje eu teria tanta coragem em enfrentar, porque ganhei experiência de vida o suficiente para entender que o problema não era aquele rapaz, aquela atitude era a demonstração de algo que só depois descobri o nome: misoginia.
Sinto fisicamente, em minhas células, em minhas veias, cada notícia de violência contra mulheres, de feminicídio, cada amiga ou conhecida que passa por violências psicológicas, morais, patrimoniais, institucionais, muitas vezes que nem elas mesmo percebem, cada estatística que transforma pessoas em números, cada memória de palavras, gestos e ações machistas ou misóginas que passei.
Há algum tempo eu deixei de considerar voltar a morar no Brasil, por vários motivos, mas um deles, não menos importante, foi a entrada da minha filha na adolescência e considerar o quanto é perigoso ser menina-mulher no Brasil. Sem ilusões, a misoginia não é exclusividade brasileira, muito pelo contrário. Porém, a violência está entranhada no Brasil, as estatísticas são claras, o risco da misoginia se transformar em violência é muito maior.
As notícias sobre violência são sempre acompanhadas de clamor por mais repressão, leis mais duras, penalização maior. Eu entendo, quem praticou violência deve ser responsabilizado. Porém, você acha que um homem quando vai assassinar cruelmente uma mulher, pensa assim: melhor eu não matar não, porque posso apodrecer na prisão? Você acha mesmo que com toda a misoginia socialmente permitida, é o medo de ser punido que vai parar a violência masculina?
Aqui nos Países Baixos, os índices de violência de homens contra mulheres também está crescendo, é um fenômeno associado a outros ódios que neste momento histórico, estão novamente aflorando e se espalhando. As estatísticas, contudo, são muito menores que as brasileiras. E são menores por que? Aqui a legislação e as penalidades são muito mais leves que no Brasil, mas menos homens cometem crimes contra mulheres. A meu ver, isso evidencia que penalidades mais duras não mudou e não mudará a situação, não trará mais segurança para crianças e mulheres.
Mais do que punição para quem comete crimes, eu quero, nós precisamos, que NÃO SE COMETA crimes contra mulheres. A diminuição da violência contra as mulheres depende do combate à misoginia. Nós precisamos parar de ser ensinados, adestrados, a odiar mulheres, a inferiorizar, a desqualificar o que é considerado feminino. E falo nós porque sim, nós mulheres também somos ensinadas a inferiorizar e desqualificar o que é considerado feminino, bem como a reforçar estereótipos de gênero.
Infelizmente, estamos passando exatamente pelo oposto. Os estereótipos de gênero estão sendo reforçados, inclusive travestidos de progressismo e inclusão. A misoginia está sendo fortalecida e se espalhando nas mídias digitais, quem faz apologia à misoginia ganha eleições, tem poder, é CEO em grandes corporações de mídia e entretenimento. A fé é usada como ferramenta dos misóginos. A indústria da beleza e wellness é ferramenta de distração e controle de mulheres.
Não está fácil, nunca foi fácil, mas enquanto há vida, há esperança. Se é pouco que eu posso fazer, pouco eu farei, mas não deixarei de fazer. Por mim, pela minha filha, por todas as meninas e mulheres da minha vida, por todas as que vieram antes de nós que precisamos honrar não desistindo, por todas que precisamos fortalecer e proteger hoje e amanhã. Por todas que estão lutando para sobreviver, em respeito a todas que não sobreviveram.
A gente não quer apenas sobreviver. A gente tem direito de viver. A gente tem direito de viver bem.

