Temores
E desejos
Se eu fosse assim, que nem a chapeuzim.
Se eu não ficasse também amarelada
Se o lobo nem existisse, ou virasse bolo e depois pudim
Se eu ficasse amiga dos trosmons e do Gãodra
Se eu escrevesse como o Chico,
Fosse meio Marieta ou Dona Nenê
Se não fosse tanto se, como seria?*
Você tem medo de quê?
Medo da morte. Medo da vida.
O medo saudável, como mecanismo de proteção.
Ou o medo como guia supremo de nossas escolhas e decisões.
O medo que nos faz correr, nos coloca em momento.
Ou o medo paralisante.
Por que tanto medo, de quase tudo, de quase todos?
O que tem além do medo, para equilibrar a balança de afetos?
A coragem? A alegria? O amor? O desejo?
Vai com medo mesmo, diz a expressão. É, pode ir com medo mesmo, mas para onde? Para onde o desejo aponta, eu acho.
É difícil ser desejante quando tantas coisas assustadoras vão acontecendo a todo momento. Acho que tanto pessoal quanto coletivamente, é o medo que ora nos move, ora nos paralisa. Desaprendemos a desejar.
Redescobrir o desejo, aquele que vem de dentro para fora, aquele que nos coloca em movimento, parece ser o grande desafio pessoal e coletivo dos nossos tempos. Afinal, o que desejamos para nós mesmos e para o mundo? Eu me recuso a aceitar que é ficar com a cara grudada na luz de uma tela enquanto aos poucos as luzes do palco-planeta-vida vão sendo apagadas.
*Inspiração do trecho inicial em Chapeuzinho Amarelo, livro infantil de Chico Buarque de Holanda, que se você ainda não leu, precisa consertar isso o quanto antes

