O pior de mim
Eu amadureci muito nos últimos anos, por conta da mudança de país, da idade, das perdas, da terapia, das horas e horas de solidão que me obrigaram a ficar comigo mesma, mas, principalmente, da minha coragem. Eu tenho muita coragem de encarar as sombras, as do mundo, a dos outros e as minhas. Estes anos, foi de mergulho profundo nas minhas sombras, com muita coragem
Muita coragem para olhar profundamente para o pior de mim, a parte que intuitivamente a gente esconde do mundo e de nós mesmos, para acreditar que somos bons, que estamos do lado certo da história. Coragem para saber que isso é uma grande mentira, um grande mito da humanidade. O bem não existe, nem o mal. São invenções para nos confortar diante da crueza bela e selvagem que é viver.
Reconhecer o pior de mim, abre espaço também para o melhor de mim, porém, tem sido mais difícil para mim encarar a luz do que a sombra. Com a sombra, os olhos se acostumam, dá muito medo no início, mas conforme as pupilas se ajustam, o medo vai passando e vou aprendendo a tatear e acomodar em mim tais sentimentos, às vezes, até vou conseguindo dissipa-los ou ameniza-los.
Já a luz, só quem tentou olhar para o sol sabe o quanto é muito mais difícil, a luz direta cega e pode fazer nosso melhor se tornar nossa fraqueza. De algum jeito estranho, me acomodei ao escuro, mesmo que isso fosse me fazendo perder o brilho, a força, a vontade de viver. Aqui e ali entra uma luz e vou sobrevivendo, mas quantas vezes eu me deixo seduzir por luzes artificiais, que frequentemente saem da tela do meu celular e me dopam, porque depois de tanto tempo acomodada no escuro, enfraquecida, parece mais e mais difícil encarar a luz, reconhecer o melhor de mim.
Talvez o problema seja a pressa, não dá para ganhar forças e se acostumar rapidamente com a luz depois de tanto tempo lidando com as sombras e com as luzes artificiais. Hoje eu começo um desafio, enquanto o mundo lá fora está entrando no outono-inverno e ficando mais escuro, eu vou começar a diminuir as luzes artificiais e acender pequenas faíscas, talvez no começo seja apenas a chama rápida de um fósforo, depois uma pequena vela, quem sabe chego a uma grande fogueira ou ao sol. Quem sabe?
Vi numa rede social um desafio de abstinência de um vício no mês de outubro. Vou começar por ai a diminuir minhas luzes artificiais. Já fiz isso outras vezes, mas não por tanto tempo: desinstalei o aplicativo do Instagram do meu celular. Eu estou muito viciada em Instagram e me sinto muito mal por isso. Eu sei que uso o Instagram para amenizar minha solidão, para conseguir escapar de problemas que não quero viver, para não ter que tomar atitudes que tenho medo ou preguiça de tomar.
Medo e preguiça. Será que só eu tenho? Medo eu sei, as pessoas até falam bastante sobre medos. Mas, e preguiça? Só eu tenho? Parece tão errado contar que eu tenho preguiça! Vem a vontade de justificar: não é preguiça de tudo, minha casa está sempre limpa e arrumada, por exemplo. É preguiça de coisas que importantes, mas trabalhosas e difíceis, as coisas que podem me colocar de volta na luz.
Viu só? Já tenho coragem de vir aqui e escrever uma das coisas que tem de pior em mim. O melhor, ainda vou ficar devendo…

